BF: Muita violência nessas músicas – você aconselha qualquer pessoa que estiver indo a Houston para manter seus cinturões de armas apertados, alguém está carregando um revólver em JOLENE, há um assassino a sangue-frio rondando a cidade em IT’S ALL GOOD e a mulher em MY WIFE’S HOME TOWN irá fazer o cantor matar alguém. Colocar violência numa canção aumenta a aposta?
BD: O que você quer dizer?
Torna a canção mais arriscada?
Bem, não. O principal é conhecer as coisas sem levá-las às últimas conseqüências. Eu acho que o quer que esteja lá é justificado. Você escolhe essas coisas com cuidado.
Você tem trabalhado em muitas áreas diferentes ultimamente. Seu livro foi um best-seller, você atuou em um filme, “Theme Time Radio Hour” é muito popular e você tem uma exposição de suas pinturas. Trabalhar em outras mídias traz um retorno à sua música?
Eu acho que se acontece, poderia acontecer do modo inverso.
Crônicas funcionou assim?
Bem, claro. Crônicas tem seu próprio ritmo. E acho que ele veio das canções.
E seu trabalho com artes plásticas?
Isso veio completamente do nada. Eu sempre desenhei e pintei, mas até recentemente, ninguém havia demonstrado interesse. Nunca houve nenhum apoio em relação a isso.
E agora?
Bem, eu tive uma exibição num museu, tenho uma associação com uma galeria em Londres, e provavelmente haverá outra exibição de novos trabalhos em outro museu europeu em 2010. Agora estou me virando pra continuar. Fui comissionado para pintar e eles querem que eu trabalhe com aço e chumbo.
Como você encontra seus temas?
Eu apenas desenho o que é interessante para mim, e então eu pinto. Filas de casas, pomares, fileiras de árvores, poderia ser qualquer coisa. Eu posso pegar uma vasilha de frutas e torná-la um drama de vida e morte. Mulheres são figuras de poder, então eu as retrato dessa forma. Eu posso achar pessoas pra pintar em comunidades de moradores de trailers. Eu poderia pintar burgueses também. Não estou tentando fazer comentário social ou preencher a visão de alguém e eu posso encontrar temas em qualquer lugar. Eu acho que, de algum modo, isso vem do mundo folk de onde eu vim.
Digamos que você acorde em um quarto de hotel em Wichita e olhe para fora da janela. Uma garotinha está caminhando ao longo dos trilhos do trem arrastando uma pequena estátua de Buda em um carrinho de madeira com um cachorro de três pernas a seguindo. Você corre pro violão ou pro seu caderno de desenhos?
Oh, uau. Depende de um monte de coisas. O ambiente, principalmente; como que tipo de dia é. É um céu azul-pardo sem nuvens ou parece que vai chover? Uma garotinha arrastando um carrinho com uma estátua nele? Eu provavelmente colocaria isso por último. O cachorro de três pernas – que tipo? Um spaniel, um bulldog, um labrador? Isso faria uma diferença. Eu teria que pensar nisso. Depende de qual ângulo estou vendo tudo. Segundo andar, terceiro andar, oitavo andar. Eu não sei. Talvez eu quisesse descer lá. Os trilhos do trem, também. Eu teria que arranjar um modo de conectar tudo. Eu acho que estaria pensando se isso era uma profecia ou um presságio de algo.
Se um jovem considerando uma carreira nas artes quisesse conhecer muitas mulheres, ele se daria melhor aprendendo a pintar ou a tocar violão?
Provavelmente, nenhum dos dois. Se ele tiver mulheres na cabeça, deveria pensar em se tornar um advogado ou um médico.
Sério?
Sim, sério. Talvez um detetive particular, mas essa seria a motivação errada pra qualquer carreira.

Em IF YOU EVER GO TO HOUSTON o personagem manda mensagens para três irmãs em Dallas; duas recebem uma saudação amistosa, mas então a outra é avisada para “rezar a oração dos pecadores” (“Pray the Sinner’s Prayer”). O que é a oração dos pecadores?
Essa é a que começa com “Pai, me perdoe, pois eu pequei”.
O cara em IF YOU EVER GO TO HOUSTON menciona que foi falsamente acusado. Muitas pessoas pensam que os ingleses trataram os espanhóis mal no Texas, mas desconsideram o fato de que os espanhóis tomaram o Texas para o México sem tê-lo povoado. Eles apenas desenharam uma grande linha no mapa e disseram: “Tudo isso é nosso”. As pessoas que realmente viviam lá eram ou colonizadores ingleses ou índios, e nenhum deles queria ter nada a ver com a Espanha ou sua colônia mexicana. Você acha que Sam Houston foi falsamente acusado?
Eu não sei. Eu nunca ouvi que ele tenha sido falsamente acusado. Estamos falando sobre Sam Houston, o estadista, soldado e político? Sam Houston foi o governador de dois estados, ambos Texas e Tennessee. Quem mais fez isso! Do que ele pode ter sido falsamente acusado?
Bem, ele cortou o Texas do México.
Não, não cortou. Ele cortou o Texas da Espanha. Assim como alguém cortou a Flórida da Espanha. Onde a falsa acusação entra?
Alguém o insultou no filme ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE, o que deixou Rock Hudson todo agitado. E eu acho que Steve Earle pode ter dado um tiro nele – ou talvez o Coronel Travis.
ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE é todo sobre dinheiro. É nele que Jimmy Dean diz a Rock Hudson: “Eu terei mais dinheiro que você e todo o resto dos filhos fedorentos de Bennedict”. Eu achei que foi isso que deixou Rock tão agitado. Steve Earle, ele pode saber algo que não sei. Quanto a Travis, ele era um advogado e morreu no Álamo. Pode ter sido algo pessoal.
As sessões instrumentais no seu disco têm uma qualidade diferente das sessões instrumentais de rock usuais. Por exemplo, em um disco do Aerosmith, pelo menos parte dele é sobre os solos de Joe Perry. Embora haja interpretações lindas em BEYOND HERE LIES NOTHING, nós não ouvimos a técnica de solos de guitarra usual. Há uma forma especial com que você lida com as sessões instrumentais em um disco?
O que posso dizer, se eu tivesse Joe Perry comigo tudo seria obviamente diferente. Porém, ele não estava lá. Solos não são uma grande parte de meus álbuns, de qualquer forma. Ninguém os compra pra ouvir solos. O que eu tento fazer é garantir que as sessões instrumentais sejam dinâmicas e uma extensão do sentimento geral da canção.
Quem é que está tocando com você aqui?
Mike Campbell.
Você tem um passado com Mike?
Sim, tenho. Ele tocou muito comigo quando eu tocava com Tom Petty.
Eu vi alguns desses shows. Particularmente, gostei do segmento durante o show quando eram apenas você e Mike e Benmont, sem baixo ou bateria.
Sim. Nós trabalhamos em algumas coisas. Eu sempre desejei ter visto isso se desenvolver mais, mas não rolou.
Como é trabalhar com ele?
Ele é bom comigo. Ele tem tocado com Tom por tanto tempo que ele ouve tudo do ponto de vista de um compositor e pode tocar quase qualquer estilo.

Muito acordeom nesse disco – em lugares onde nós poderíamos esperar ouvir uma gaita ou um órgão ou uma guitarra.
É, acho que sim. O acordeom pode soar como todos esses instrumentos. Na verdade, eu queria tê-lo usado mais em alguns de meus discos passados.
Quem o está tocando?
David Hidalgo.
Vocês já tocaram juntos antes?
Acho que sim. Los Lobos tocaram em alguns shows comigo no México um tempo atrás. Eu me lembro de tocar algumas coisas com David e César nessa época.
Há uma chance de você adicionar um acordeom no palco?
Bem, claro, se eu puder encaixá-lo na minha seção rítmica.
Você escreveu alguma dessas canções com o acordeom em mente ou ele surgiu durante as sessões?
“Abriu seus olhos para o som do acordeom”.
Precisamente.
Fale-me sobre Joey Gallo.
Te falar o que sobre ele?
Você escreveu uma canção sobre ele. Alguns dizem que ela toma liberdades com a verdade.
Sério? Eu não saberia. Jacques Levy escreveu as letras. Jacques tinha uma mente teatral e ele escreveu um monte de peças. Então, a canção pode ter sido teatro da mente. Eu apenas a cantei. Alguns dizem que Davy Crockett toma muitas liberdades com a verdade e Billy the Kid também – Frank Delano Roosevelt em Trinidad. Você já ouviu sobre isso?
Eu certamente me lembro. “Quando Roosevelt veio para a terra dos beija-flores”. Eu me pergunto se alguém em Georgia ou na Ucrânia escreveu uma canção sobre a visita de George Bush. Eu sei que nomearam a estrada do aeroporto em sua homenagem e sua popularidade nesses lugares continuou alta, até quando ninguém gostava dele em casa.
Eles nomeiam ruas em homenagem a muita gente.
Em MY WIFE’S HOME TOWN há o verso “Dreams never did work for me anyway” (“Sonhos nunca funcionaram pra mim, de qualquer modo”). Você realmente acredita nisso?
Bem, sim. Sonhos podem levar a um beco sem saída. Todos têm sonhos. Nós vamos dormir e nós sonhamos. Eu sempre pensei neles como vindos do inconsciente. EU acho que você pode interpretá-los. Sonhos podem nos dizer muito sobre nós mesmos, se pudermos nos lembrar deles. Nós podemos ver o que está vindo na esquina algumas vezes, sem realmente ir até a esquina.
Podem os sonhos significar também esperanças sobre o futuro?
Oh, claro. Tem a ver com o modo como nós usamos a palavra, eu acho. Esperanças sobre o futuro? Eu sempre os conectei a medos sobre o futuro. Esperanças e medos andam juntos como uma equipe de comédia. Mas eu sei do que você está falando. Como na canção dos Everly Brothers, ALL I HAVE TO DO IS DREAM. Se eles dissessem “All I have to do is hope” (“Tudo o que tenho que fazer é ter esperança”), não estariam dizendo a mesma coisa. Não seria tão forte.
E que tal sonhos políticos?
Oh, sim. Políticos têm sonhos políticos – sonhos e ambições. Talvez estejamos falando sobre duas coisas diferentes.
Qual é sua posição sobre política?
Política é entretenimento. É esporte. É para os bem trajados e bem fornidos. Aqueles que se vestem impecavelmente. Partidos de animais. Políticos são intercambiáveis.
Você não acredita no processo democrático?
Sim, mas o que isso tem a ver com política? Políticos criam mais problemas do que os resolvem. Pode ser contraproducente. O poder real está nas mãos de pequenos grupos de pessoas e eu não acho que eles tenham títulos.