Bootlegs.

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Qual é seu bootleg favorito? Se você não é um dylanmaníaco, talvez não saiba do que estou falando. Então explico: Bob Dylan é o cara mais pirateado da história da música pop. Isso é fato. Howard Sounes dedicou uma vasta parte da biografia que escreveu sobre Bob a esse tema. Desde a década de 60, incontáveis versões ilegais de shows, lados-B e todas as modalidades de restos e rapas de gravações relacionados a Dylan foram comercializados, para a alegria dos fãs e o desespero do compositor. Foi graças a essa avalanche de material que, por exemplo, as famosas Basement tapes vieram à tona, obrigando a Columbia a lançar uma versão masterizada anos mais tarde. Foi também por conta dela que, nos idos da década de 80, surgiu Biograph, uma caixa contendo 5 LPs repletos de outtakes e faixas inéditas. Embora a compilação reúna igualmente registros presentes em outros discos oficiais, é considerada por muitos uma espécie de prefácio para o que viriam a ser os Bootleg series, que com Tell tale signs, do ano passado, chegaram a seu oitavo volume.

A iniciativa por detrás de Biograph e dos Bootleg series reflete não apenas o nobre objetivo de apresentar à audiência composições perdidas da carreira do cantor, como uma reação contra a pirataria, traduzindo o famoso mote “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Contudo, apesar da inegável qualidade e da importância desses álbuns, é ainda nas versões ilegais, em circulação por todos os cantos (e de forma ainda mais livre nesses nossos tempos cibernéticos), que se encontram alguns dos maiores tesouros de Dylan. Como todo fã die-hard do cara, possuo minha listinha de bootlegs favoritos. Destaco aqui os três que mais curto.

Bob Dylan & the band – Isle of Wight Festival 1969 traz a gravação do lendário show de retorno de Dylan. Após o misterioso acidente de moto que o afastou dos holofotes por dois anos, o compositor voltou aos palcos junto com a Band, dando continuidade à sua carreira e início a uma de suas mais inusitadas fases. Sob os influxos solares de Basement tapes, John Wesley Harding e Nashville Skyline, esse Dylan pacífico, doce, familiar, em nada lembrando o “demônio de combate” – para usar a expressão baudelaireana – da fase Highway 61, exala carisma e musicalidade  ao lado do lendário grupo de apoio liderado por Robbie Robertson. O clima de despojamento e tranqüilidade é total, sentido tanto na entonação country das guitarras quanto na voz estranhamente aveludada de Bob, responsável por conceder a algumas de suas composições antigas (como She belongs to me e, sobretudo, Like a rolling stone) uma coloração totalmente nova. Destaco ainda a presença da divertidíssima Quinn the Eskimo, e a versão de To Ramona – provavelmente, a mais linda que já executou.

Meu “ao vivo” favorito, contudo, permanece sendo aquele gravado em Avignon, na turnê de 1981 do disco Shot of love, apogeu da “fase cristã”. Sei que essa não é uma fase muito popular, mas, mesmo não me identificando com as mensagens de muitas das músicas desse período, as considero, do ponto de vista estético, verdadeiras obras-primas. Penso também ser esse o momento em que Bob atinge seu ápice enquanto cantor. A apresentação em Avignon, registrada em um bootleg de grande qualidade, traz as melhores interpretações que composições de Slow train coming, Saved e Shot of love já tiveram, além de conter impressionantes versões de clássicos como Girl from the north country (uma semelhante, mas desprovida da mesma intensidade, se encontra no oficial Real Live), Like a rolling stone (incríveis backing vocals!), uma quase irreconhecível Knocking on heaven’s door, cheia de suingue e marcada por um dos melhores solos de gaita que já ouvi Bob tocar, e na mais feroz de todas as versões de Maggie’s farm. Se há um problema em Avignon, France, 25th July 1981, é a presença dos números paralelos (canções gospel tradicionais interpretadas pro Carol Dennis) que, a meu ver, quebram o ritmo da apresentação. Mas, ainda assim, tais interrupções não bastam para diminuir a importância do registro, responsável por evidenciar a muitos céticos a grandeza que se esconde por detrás de diversas composições desse período, por vezes ocultada em função da pobreza das gravações de estúdio. É o caso de, sobretudo, Slow train, Heart of mine, When you gonna wake up, Man gave name to all the animals e, obviamente, Shot of love.

Finalmente, como falar dos bootlegs de Dylan sem remeter ao lendário Ten of spades? Pouco antes do lançamento do já citado Biograph, surgiu no “mercado negro” essa coleção de 20 LPs (é isso mesmo! 20!), contendo 134 canções. Outtakes de todos os discos gravados entre 62 e 65, ou seja, do debut a Highway 61; o já clássico concerto no “Albert Hall”; as Minessota tapes (gravações caseiras feitas por Tony Glover na casa de Dave Whitaker em 1961 – antes do lançamento do disco Bob Dylan); maravilhosas gravações de um pequeno show apresentado no Café Gaslight, em Nova York (1962); o concerto no Carnegie Hall em 63, onde Bob declama seu lendário poema Last thoughts on Woodie Guthrie; e uma série de outras canções inéditas gravadas em diversos contextos, se encontram reunidos nesse que é, sem sombra de dúvidas, o bootleg dos bootlegs. Impossível destacar seus pontos altos, uma vez que é composto, do início ao fim, exclusivamente por eles! Das revisões que o jovem cantor faz de clássicos do folk e do blues, como Cocaine, Kind hearted woman, Walkin’ down the line, He was a friend of mine e Rocks and gravels (sendo aquela registrada em Gaslight, talvez, a minha interpretação favorita de Bob para qualquer canção que não seja de sua autoria), às versões de Can you please crawl out your window, John Brown, Love minus zero/ No limits, Let me die in my footsteps (contendo versos cortados da gravação pertencente ao Bootleg series vol.1!) e a deliciosa Bob Dylan’s New Orleans Rag 1, tudo em Ten of spades é ouro puro. A caixa também antecipou o lançamento de algumas das principais gemas de Biograph. É o caso da obra-prima Lay down your weary tune e de I’ll keep it with mine, acrescida aqui de um diálogo curioso entre Dylan e, creio eu, Tom Wilson, produtor de The times they are a-changin’, Another side, Bringing it all back home e Highway 61 revisited, na qual, no curto intervalo entre uma tomada e outra, ouvimos o espirituoso cantor “corrigindo” a indicação do produtor:

-  C085271, “Alcatrass to the night power”.

-  NO! That’s not the name of it!

-  That’s what you told me when you left!

-  I switched thoughs, this song’s ah…ahn… hum… BANK ACCOUNT BLUES!

-  Hehehe! Correct cule: Bank account blues! Take 1, rolling!

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Published in: on May 14, 2009 at 7:13 am  Leave a Comment  

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